Era uma vez… há muito tempo atrás, quase nos primórdios da civilização, um povoado pré-romano. Na época romana designava-se Cale ou Portus Cale, sendo a origem do nome de Portugal. Portus significa a porta, topónimo que traduz a vida comercial e o desejo de um povo pioneiro na descoberta do desconhecido. Mais tarde chamaram-lhe Porto. Nesse lugar havia um rio chamado Douro por ter em si muitas e belas riquezas.
Ao longo dos séculos foram vários os seus governantes, entre eles os Mouros que por aqui passaram até ao reinado d’El Rei D. Afonso I.
Em 1111, D. Teresa, mãe do futuro primeiro rei de Portugal, concedeu ao bispo D. Hugo o couto do Porto. Das armas da cidade faz parte a imagem de Nossa Senhora. Daí o facto de o Porto ser também conhecido por “cidade da Virgem”, epítetos a que se devem juntar os de “Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta”, que lhe foram sendo atribuídos ao longo dos séculos e na sequência de feitos valorosos dos seus habitantes, e que foram ratificados por decreto de D. Maria II de Portugal.
O burgo, sob o comando de D. Hugo foi sempre crescendo, quer dentro dos muros, quer nas imediações da cidade. Estendendo-se pela Ribeira até à praia onde desembarcavam e embarcavam mercadorias.
A crescente importância económica do burgo episcopal começa a despertar a cobiça dos poderosos e com eles a dos reis. E as lutas começam. As disputas entre reis e bispos pelo controlo dos recursos da cidade, nomeadamente dos rendimentos da actividade portuária permanecem até ao reinado de D. João I.
Entretanto a cidade continua a crescer e é no reinado de D. Afonso IV que é mandado edificar uma cinta de muralhas destinadas a proteger o pequeno burgo, esses muros ou muralhas que circundavam e defendiam o velho burgo portucalense existiam ainda no século XVII.
Cedo o Porto demonstrou o seu grande potencial na construção naval, quer a nível industrial, quer comercial. A esse potencial não são alheias as ligações inquebráveis que o Porto possui com o Douro e com o Atlântico. Assim pelo século XIV adiante foi o Porto o principal centro português de construções navais.
Entra pelo mar dentro, em busca de novas paragens, navios. Os marinheiros e população reuniram interesses e esforços de muitas formas na expedição à conquista de Ceuta, e ajudam o infante D. Henrique, nascido na Invicta. É ele que organiza uma formosa esquadra com destino ao o Norte de África passando por Lisboa antes para se juntar ao Rei. E foi por tal empenhamento que os portuenses receberam a alcunha de Tripeiros, pois segundo contam, a dedicação do povo levou a que fornecessem as naus e galeras com as carnes ficando apenas as tripas como alimento dos que por cá ficaram. É também esta a razão pela qual o prato tradicional da cidade ainda é, hoje em dia, as “Tripas à moda do Porto”. Existe uma confraria especialmente dedicada a este prato típico.
Ao longo da história o Porto foi sempre muito cobiçado, pelas riquezas, privilégios, autonomia e tradição que o caracterizavam, mas com o Foral Manuelino de 20 de Junho de 1517 o Porto perdeu grande parte dos seus privilégios. Contudo o povo portuense sempre honrou o seu carácter colectivo, através do seu espírito de independência e o seu amor à liberdade.
Mas o engrandecimento da cidade não se reflecte apenas nas actividades comerciais, expandindo-se às artes, como é o barroco nasoniano marcado em alguns templos da cidade. Uma das características deste estilo é o recurso à policromia e à exuberância das formas, bem como a conjugação de revestimentos a ouro com a pintura e o azulejo criando ambientes de rara beleza.
Em 1755 o Porto é marcado por um terramoto que apenas provocou pequenos estragos, na sequência da reconstrução de Lisboa, a influência inglesa e a acção dos Almadas, trazem para a cidade um surto de engrandecimento admirável.
Sobrecarregada com a crise da tecelagem, mas apoiada no comercio do vinho do Alto Douro, trazido rio abaixo e embarcado no Porto, facto que se traduziu no nome pelo qual esse vinho é conhecido, a cidade vê aumentar ainda mais o seu núcleo populacional com colónias de ingleses e outros europeus que se estabeleceram e radicaram na cidade.
No século XIX o Porto é massivamente modernizado através de novas ideias, riqueza acrescida, força empreendedora, um deslumbrante escola de gente de saber, políticos, capitais e sobretudo a inegável força popular, afeita ao trabalho, resistente e ciosa dos seus pergaminhos de independência e liberdade.
Com uma determinação impar, a cidade foi crescendo, organizando-se administrativa, financeira e culturalmente, constituindo-se numa capital regional que ainda hoje é.
Ao longo do século XX o cunho que a caracterizou manteve-se e hoje a cidade é um dos grandes pilares políticos e económicos do País. E ainda foi o pólo de crescimento industrial significativo quer internamente, quer nas regiões vizinhas.
A cidade velha de séculos, contrastante com o fervilhar de actividades e ideias não se pode desligar do povo que lhe dá vida, carácter e cunho. Gentes de linguagem marcada, sonora e garrida, trabalhadora e entusiasta, vibrante com os seus ídolos desportivos, áspera e livre na crítica. Gente “de coração na boca”.
Não é de admirar que esta cidade seja considerada a mais imponente cidade do Norte merecendo a justa classificação de Património Mundial.